A Bexiga Dourada

Publicado em 21/10/2011

1


Sempre teve a intuição de que sua natureza seria voar, flutuar por aí… pertinho das nuvens, dos pássaros, aviões…

botar seu conteúdo na mesma freqüência do vento.

Mas desde que nasceu, inflada num único sopro de máquina, viu-se primeiramente acoplada a um mastro; e depois..

Fez a alegria de uma pequena marrenta, que após algumas lágrimas de crocodilo a ganhou, brincou um pouquinho até enjoar-se e então fincou-a na terra, num vasinho da sacada junto às plantas.

Desde então passou seus dias ali, fadada às diárias tricotadas.

Quando não aparece o bem-te-vi, beija-flor a pomba ou o pardal com as notícias de longe, entretém suas amigas flores com as estórias de sua breve vivência no mundo lá fora.

Mesmo nesses momentos, sente um vazio… Ela não é parte desse mundo… não tem raízes, não se alimenta da terra molhada como suas vizinhas.

Quando olha para o céu, enxerga ao longe um amigo.. Dourado e brilhante, assim como ela. As vezes de tanto olhar acomete-lhe súbita cegueira, entra em delírio, clama às ventanias que lhe levem dali..

Enquanto brotam-lhe raízes imaginarias fica sonhando acordada, embalada pelo ritmo da brisa..

 Sem conhecimento de seu frágil e efêmero estado, nem se dá conta de que a cada suspiro, seu ar aos poucos se esvai, murchando seus pulmões, subvertendo sua compleição.. Misturando-se ao resto do mundo..

[lisperonti]

About these ads
Marcado:
Posted in: Poesia